Entrevista

16 de janeiro de 2013

Algumas coisas evoluíram de lá para cá, mas este texto é bom para explicar a história e os objetivos do grupo.

Entrevista com Nola Pompeo para a Revista Ímpar – Maio de 2012

1. Conte um pouco sobre o que é o Tambores Vento Bom.

É uma ação para promover a música e a educação musical. Tem o estudo da rítmica (ciência do ritmo) como fundamento e pretende se expandir para outras áreas da música.

2. Como e quando começou e o porquê da escolha do nome?

O Tambores Vento Bom começou em 2006. Comecei porque queria estudar e fazer música com tambores de acordo com a concepção que estabeleci durante meu aprendizado, que teve início especialmente em 1999, quando fui para o Rio de Janeiro com um grupo de teatro passar um semestre na Escola Nacional de Circo (Funarte). Ao mesmo tempo que estudávamos na escola, trabalhávamos com peças teatrais que tinham teor popular e folclórico. Então íamos sempre no Museu do Folclore fazer pesquisa. Também tivemos contato com várias manifestações e artistas em Santa Tereza e na Lapa. Especialmente o grupo Abayomi e seu Cortejo Brincante.

Em 2002 participei de uma oficina de maracatu de baque virado, já em Campo Grande, ministrada pelo Chico Simão e pela Luciana Orsi. Essa oficina foi o início do grupo que o Chico coordenou por vários anos, chamado Bojo Malê. Deixei esse trabalho em 2003 para continuar minhas pesquisas.

Em 2006 comecei a construir os tambores que usamos até hoje. E em 2007 dei a primeira oficina usando já o nome Tambores Vento Bom.

Agora em 2012 eu e Chico nos reencontramos e tivemos a vontade de fazer de novo uma oficina e iniciar um trabalho com ritmo e música. Passado todo esse tempo, nós dois desenvolvemos percepções diferentes e achamos que seria interessante juntar isso.

O nome faz alusão a algumas coisas. Primeiro ao Tambor, que é símbolo da linguagem rítmica em música. O Vento é a lembrança de que a música tem como base o som, que é produzido através do movimento. Então o vento é o movimento que sopra o mundo, como se fosse uma flauta, e gera uma série de outros movimentos, fazendo com que a vida se manifeste. Finalmente, Bom é uma alusão à tríade do educador musical Edgar Willems: bom, belo e verdadeiro. Ele dizia, segundo me lembro, que a arte tinha que manifestar esses valores: bom no sentido de bondade e de competente, belo no sentido estético da beleza, e verdadeiro no sentido de que sou aquilo que faço, de que estou ligado àquilo que faço, e não simplesmente represento ou simulo o que faço.

3. Qual a proposta/ objetivo do grupo?

O grupo tem como primeiro foco a atividade na Praça do Peixe, que tem como objetivo inicial capacitar a percepção e composição de ritmo por meio da vivência com os tambores e da prática de música em conjunto em um contexto popular.

Além do enfoque na composição e improviso de ritmo, serão abordadas estruturas rítmicas da música popular brasileira, como maracatu, samba, baião, côco, polca, chamamé, funk, samba-reggae, etc.; assim como da música popular mundial, como da costa oeste africana, por exemplo, e da música de concerto.

Queremos, nesse primeiro momento, consolidar um grupo para tocar música popular na rua e em espaços abertos, o que nos permite estabelecer uma instituição cultural artística sustentável e autônoma. Com o decorrer da atividade também almejamos realizar oficinas específicas para instrumentos e formar espetáculos de percussão para outros contextos, como teatros e auditórios, com peças para conjuntos de câmara, banda sinfônica e orquestra, utilizando aqueles membros que tiverem interesse e disponibilidade de trabalhar, expandindo a ação para outras áreas.

A música de percussão é algo abrangente e com o que não temos muito contato usualmente, especialmente em Campo Grande. Para além da característica percussão popular, extremamente rica no Brasil, há uma área aparentemente pouco explorada de composição e de concerto, incluindo formações instrumentais diversas e o uso de texturas contemporâneas.

Ainda, através da energia claramente manifesta pelo ritmo, pode-se criar um movimento que desperte a educação musical em todos os âmbitos, inclusive abordando outras formas de manifestação musical, com instrumentos melódicos e harmônicos, aproveitando a recente inserção da música nas escolas regulares. É possível, por exemplo, uma orquestra de violas-caipiras e tambores. Podemos somar a isso guitarras, sanfonas, bandolins, etc.

O grupo tem assistido ao maravilhamento de pessoas que sempre sonharam tocar suas mãos em um tambor e nunca tiveram a oportunidade. Então quando fazem o tambor soar, têm suas vidas lançadas a outra perspectiva. Esse movimento é transformador e é o princípio fundamental da existência do grupo.

4. Qual o repertório do Tambores Vento Bom? O grupo faz apresentações?

O trabalho está em seu início e estamos completando o segundo mês de atividades. As apresentações serão iniciadas em cerca de seis meses, especialmente como forma de cortejo aberto na rua. Como repertório pretendemos utilizar composições rítmicas produzidas durante a oficina e também linguagens da cultura popular do Brasil e de algumas partes do mundo.

5. Qual relevância sócio-cultural?

O grupo estabelece um espaço para a prática de música e da educação musical em um contexto popular e de conjunto, a partir da perspectiva da rítmica.

Acreditamos que oferecer esse tipo de espaço contribui para a integração da comunidade, para a aproximação com a cultura brasileira e para a reflexão sobre a educação e o papel da música nas escolas regulares e na sociedade de maneira geral.

O grupo tem a diretriz de ser autônomo e sustentável, ou seja, não dependente de financiamentos e incentivos fiscais ou de renúncia fiscal proporcionados pelo estado. Dessa maneira, convida a comunidade a participar de maneira ativa, tanto fazendo música quanto consumindo essa música e seus produtos e sendo capaz de valorar isso como qualquer atividade econômica, social e educativa que existe dentro da sociedade.

Assim pretendemos contribuir para a educação de maneira geral e para os esclarecimentos a respeito do valor em arte.

6. Qual o diferencial do Tambores Vento Bom para outros grupos de percussão?

Em Campo Grande, com exceção das baterias de escola de samba e das baterias de fanfarras e bandas marciais, não temos notícia de grupos de percussão organizados.

Menos ainda com os objetivos e possibilidades que temos levantados para o Tambores. Entre essas características especiais está o estudo da música de maneira técnica e artística, além da tradição oral, e a instrução por educadores musicais licenciados, o que abre espaço para diálogos com linguagens musicais de mundos diferentes e para uma prática musical que se relacione com a educação e a sociedade de maneira mais ampla do que a do entretenimento.

7. Quais os próximos projetos?

Assim que terminar a fase de formação básica da turma que está trabalhando agora, iniciar os cortejos abertos em rua. A partir dessa movimentação, buscar parceiros para contribuir na formação em escolas do sistema regular de ensino público e privado e em comunidades que se interessem por esse tipo de ação.

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